Blues que machuca

Meu amigo Wellington, quando quer dizer que uma música está fazendo sua cabeça, profere a seguinte frase: “olha, isso até machuca”. De tanto ouvi-la, também a adotei.

Não sou músico como ele, que sabe identificar a linha de baixo revolucionária do Paul McCartney em “Something”, mas também me sinto atingido por algumas sequências musicais, como todo mundo, talvez.

No álbum L. A. Woman do Doors, há uma faixa que me deixa particularmente combalido. “Crawling King Snake” tem uma pegada blues que não é exatamente a de caras como Albert King ou de bandas como Led Zeppelin, mas algo exótico e delirante que, bem provável, deve ter saído do jazz. É pesada, orgânica e sutil, todos esses adjetivos misturados com a voz densa do Morrison.

Se ela surgir do nada, de madrugada, num shuffle qualquer do Spotify, o efeito é ainda mais nocivo. A cadência pegajosa da bateria e do baixo (que não deve ser tão transgressor quanto o do McCartney, mas também é capaz de fazer seus estragos), aliada aos sutis toques da guitarra e do teclado, tem o poder de fazer cérebros derreterem.

Se Frank Zappa fez o Jazz from Hell, “Crawling King Snake” é o blues infernal orquestrado por Ray Manzarek.

Um blues, como diria Wellington, que machuca.

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Um modo estúpido de ver poesia em algo feito com uma Bic azul

Alguém me disse que o diretor de Projeto Flórida filmou um de seus longas apenas com a câmera do celular. Num mundo em que existem trambolhos tecnológicos como a Panavision 70, chamam a atenção os limitados recursos empregados por Sam Baker.

Gosto da ideia de fazer mais com menos, apesar de também apreciar coisas da magnitude de Dunkirk. Mas, de vez em quando, é inspirador saber que alguém fez um filme apenas com seu celular e a boa vontade dos atores. É como ver a Roma, um time munido apenas de seu limitado e raçudo De Rossi, batendo o Barcelona de gênios como Messi e Iniesta.

Não quero ser um analógico ponto fora da curva. É legal o uso moderado de tecnologias. Mas ainda aprecio a utilização de outro dispositivo, bem mais barato que um iPhone de geração defasada. É da caneta esferográfica que estou falando.

Na Série Napolitana de Elena Ferrante, Elena Greco (personagem principal), ao conhecer um computador, afirma não querer utilizar nunca mais outra ferramenta para escrever. Dois revisores de História do cerco de Lisboa (Saramago) imaginam as maravilhas que Balzac e Eça de Queirós poderiam fazer se tivessem conhecido editores de texto como o Word. João Ubaldo Ribeiro era um viciado em informática que disputava com seu amigo Rubem Fonseca para ver quem tinha o equipamento mais moderno.

Não critico os procedimentos utilizados por eles (quem sou eu para fazer tamanha barbaridade?). É apenas um modo estúpido de ver poesia em algo feito com uma Bic azul. Marçal Aquino diz fazer literatura em cadernos. Sérgio Sant’Anna, também. Milton Hatoum, idem. Tostão escreve suas crônicas à mão antes que elas sejam estampadas na página do jornal. Tertuliano, personagem criada pelo informático João Ubaldo para protagonizar O albatroz azul, enche folhas de papel com palavras para depois queimá-las (olha a poesia aí). Vejo isso como uma redução de velocidade, uma necessária falta de pressa.

Vinicius de Maraes escreveu sobre o cronista que senta em frente à máquina sem que ideias lhe venham à cabeça. Com a esferográfica, é possível rabiscar o papel com palavras que dizem nada até que o assunto chegue (ou não). Escrever só por escrever. Se o exercício não resultar num bom texto, pelo menos a milenar arte da escrita continua sendo mantida. Uma grande vitória nesses estranhos dias em que alunos, ao invés de fazerem filmes com as câmeras de seus celulares, tiram fotos da lousa para não terem que copiar o conteúdo.

Desde que seja de madrugada, como se fosse no Intercine

Há tempos o Intercine deixou de existir. Para quem nasceu com a Netflix e não sabe do que se trata, explico: era uma sessão de filmes para insones transmitida pela Rede Globo; nela, dois títulos eram oferecidos diariamente e os telespectadores votavam naqueles que mais desejavam ver por meio de um 0800 (jurássicos tempos pré-internet). O mais votado, óbvio, ia para a tela. Época distante. Hoje, com o streaming, isso virou balela. Por que esperar algo passar na TV se posso ver o que quiser, na hora em que bem entender? Enfim, podem me chamar de saudosista (ou masoquista), mas, sempre que posso, faço minhas próprias e particulares sessões. A última (que pode ter sido ontem ou há mais de dois dias, dependendo de quando esse texto for publicado) foi com Nove Rainhas, filme argentino com cara de madrugada.

“Cara de madrugada?” Sim.

Não sei explicar em termos técnicos. São longas com enredo e fotografia diretamente proporcionais à televisão e ao período do dia supracitado. Exemplos desses espécimes são Barton Fink, O iluminado, Veludo azul e Cyborg: o dragão do futuro. Histórias diferentes que obedecem (em minha humilde opinião) certo padrão visual e possuem roteiro incompatível com a Sessão da Tarde, por exemplo. Não por serem obras muito cabeçudas (excetuando Veludo azul, talvez), mas pelo fato de despertarem o interesse da audiência naquele momento em que se cogita ir para a cama depois de zapear com o controle remoto por todos os canais.

Voltando à película argentina: com direção de Fabián Bielinsky, trata-se de um conto, basicamente, sobre trapaça. Seus protagonistas são Marcos (Ricardo Darín, sempre ele) e Juan (Gastón Pauls), malandros que escolheram não ter um trabalho com horário e salário fixos. Os pulhas tiram seu sustento de enganar idosos indefesos e balconistas desatentos. Vivem sempre no limite, na tênue linha entre o sucesso e o fracasso. A grande oportunidade de suas carreiras aparece quando um influente político, que tem como hobby colecionar selos, está hospedado em Buenos Aires. A dupla de embusteiros tenta a todo custo vender-lhe uma cópia fiel de um conjunto de estampas raras confeccionadas na antiga República de Weimar: as Nove Rainhas.

Na correria para que o golpe seja concretizado, um elenco de batedores de carteira, vigaristas do carteado e aproveitadores de plantão é apresentado. A capital argentina é o cenário, mas bem poderia ser qualquer grande metrópole. Os ciganos golpistas de Londres representados em Snatch (dirigido por Guy Ritchie) e os trapaceiros soviéticos dos Contos de Odessa (escritos por Isaac Bábel) certamente se entenderiam com os latino-americanos. Ao final, descobrimos que nada é o que parece. Uma trama ainda maior é urdida por baixo do tapete. Em qualquer selva de pedra, só há espaço para experientes e astutos jogadores.

Nove Rainhas é um filmaço para ser visto em qualquer horário. Desde que seja de madrugada, como se fosse no Intercine.

Suor, tropicões e boas resenhas

Outro dia, vi um tuíte do Menon sobre pessoas iniciantes no procedimento de andar pelas ruas. Segundo o jornalista, dá para saber quem elas são, pois todas saem com guarda-chuva, casaco, chapéu, sapato, cabelo, enfim, estão (ou acreditam estar) preparadas para tudo. Na visão do blogueiro, quem está acostumado a bater os calcanhares no concreto das calçadas não se preocupa com eventualidades de ordem climática.

Isso me lembrou “A arte de andar nas ruas do Rio de Janeiro”, conto de Rubem Fonseca. A história é sobre Augusto, sujeito que resolve tornar-se andarilho depois de ganhar na loteria com a intenção de coletar material empírico para escrever um livro. Andando pelo centro da capital carioca, a personagem tem contato com os mais variados tipos, que vão de moradores de rua a prostitutas. Augusto explica que dentro de um automóvel (ou qualquer meio de transporte) não se vê detalhes (para quem está escrevendo um livro, importantes) escondidos no movimento das calçadas.

Durante boa parte da minha vida, andei basicamente a pé. Depois, quando comecei a trabalhar numa empresa que disponibiliza transporte coletivo aos funcionários, esse hábito perdeu-se por dez anos. Hoje, percebo que voltei a ser um principiante, assim como os anônimos descritos pelo Menon.

Quase sempre tenho errado na escolha do vestuário. Admito que, em Araraquara, prever uma pancada de chuva é até plausível, mas esperar que a temperatura baixe já é demais. Mesmo dando preferência a um trajeto pela arborizada rua 5, inevitáveis (e abundantes) gotas de suor brotam em minhas têmporas, consequência de optar por calça em vez de bermuda.

Além do calor, ainda há a ocorrência dos tropicões. Quando a ponta do pé não se choca com pedaços de concreto levantados, a sola do tênis, inexplicavelmente, enrosca nas mínimas saliências. Coisas de amador.

O lado positivo é a possibilidade de passar pelos sebos e pelas bancas do Centro e do Carmo. Nessas ocasiões, algumas conversas legais podem acontecer.

Exemplo de conversa legal 1: a história em quadrinhos japonesa Lobo Solitário está sendo reeditada pela Panini. Na Banca do Correio, um homem de cabelos e barba grisalhos, ao ver o encadernado número 1 em minhas mãos, demonstrou grande surpresa com o retorno daquele que foi seu mangá favorito num outro tempo. Entabulamos resenha sobre as capas desenhadas por Frank Miller e a influência do samurai criado por Kazuo Koike nos filmes do Tarantino (Kill Bill, principalmente).

Exemplo de conversa legal 2: a Folha de S. Paulo lançou uma coleção de livros escritos por mulheres. Entre eles, está um volume que há tempos eu perseguia, 15 contos escolhidos, de Katherine Mansfield, boa edição em capa dura por preço acessível. Quando solicitei a obra (também na Banca do Correio), o dono quis saber se não me interessaria pela mais vendida, E não sobrou nenhum, da Agatha Christie. Respondi que, além de já ter o livro, é um dos meus romances de mistério favoritos. Ele confessou também gostar muito da trama em que várias personagens são confinadas numa ilha e começam a ser assassinadas uma a uma. Rimos da existência de pessoas que consideram as obras de Christie literatura de má qualidade.

Essas situações comprovam a tese de Augusto. De fato, entre tantas outras coisas, agradáveis e vagarosas trocas de ideias podem ser encontradas nas calçadas – boa notícia, em tempos de fake news e WhatsApp. Se aprender a ser um caminhante menos preocupado com reviravoltas climáticas, seguindo as observações do Menon, certamente essas andanças serão melhores ainda.

Estou sendo otimista, vejam só. Outra coisa rara em tempos tão turbulentos.

Chegou a vez do Cine Lupo

Há mais ou menos dois anos, quando a Cosac Naify anunciou que encerraria suas atividades, houve grande comoção. Em entrevista concedida à revista Piauí, o dono da editora, Charles Cosac, afirmou que as pessoas não estavam comprando livros e nada poderia ser feito se, após o anúncio do fechamento, as vendas aumentaram substancialmente.

Foi mais ou menos isso o que aconteceu no último fim de semana, com o adeus do Cine Lupo. O motivo: o público, há bastante tempo, minguava. Muita gente foi para a timeline lamentar o fim do cinema mais old school de Araraquara. Mas quantas dessas pessoas estavam contribuindo para que ele não falisse? Particularmente, tive que fazer um esforço para lembrar a última vez em que estive lá – foi para ver Dunkirk, há uns quatro meses, o que já faz um bocado de tempo. Acho bizarro isso. Ficamos tristes por algo que ajudamos a destruir. De fato, pouca coisa faz sentido nessa vida.

Não adianta. Os torrents e os serviços de streaming fizeram com que preferíssemos ver um filme em casa – não vou nem entrar nos méritos da ilegalidade quando abdicamos de pagar para consumir um produto cultural. Vivemos em tempos individualistas (sim, mais um clichê). Sair de casa pra quê, se temos tudo à disposição com apenas um clique?

Alguns dirão que ainda há o Moviecom Jaraguá. Com todo o respeito ao estabelecimento, não é a mesma coisa. Vejo aquele espaço como um ponto de encontro para pessoas com menos idade que eu (e olhe que nem sou tão velho assim), além de sempre haver poucas alternativas que não sejam as franquias, os filmes dublados e as exibições em 3D (ainda prefiro o jeito convencional).

Não vou (não quero) cair na armadilha do saudosismo. Mas, depois das videolocadoras, parece que chegou a vez dos cinemas tombarem. Como não tive muitas experiências alugando filmes (não tínhamos videocassete em casa), o fim do Cine Lupo me fez pensar nas bancas de jornal e revistas. Araraquara é uma cidade que até possui grande diversidade nesse quesito. É só caminhar pelos arredores da prefeitura para perceber isso. Entretanto, a banca que mais fez parte de outros tempos da minha vida foi a da rodoviária, aquela que ficava no saguão de entrada, na parte de cima, uma ilha amarela de concreto. Hoje, há um espaço vazio ali. Ninguém mais precisa procurar algo para ler enquanto espera seu ônibus. As redes sociais disponíveis no celular são o principal atrativo para quem passará por minutos ou horas ociosas. Logo, as do centro também perderão sua utilidade. O papel não servirá nem pra embrulhar peixe.

Assim como o amigo Luis Antônio (foi por ele que fiquei sabendo, na noite de sábado, que o Cine Lupo faria suas últimas sessões no dia seguinte), vi os principais cinemas de Araraquara morrerem. Minha primeira experiência com a telona foi no Cine Veneza, há mais de vinte anos, com Space Jam. Sempre monitorado pela tia Sílvia (a única das tias que gosta de cinema), frequentei também o Cine Capri e o Cine Tropical. Parafraseando o Luis, todos eles entraram para a história.

Chegou a vez do Lupo.

Gosto amargo

Segundo Julio Cortázar, o conto, por ser uma narrativa curta, deve arrebatar o leitor, nocauteá-lo como numa luta de boxe – tais palavras, para aqueles que se interessarem, estão no livro Valise de cronópio. A título de exemplificação, histórias nesse “estilo Mike Tyson” são os contos “Feliz ano novo”, de Rubem Fonseca – em que assaltantes invadem uma casa e cometem as mais hediondas barbaridades –, e “Os anões”, de Veronica Stigger – sobre um ataque coletivo contra dois portadores de nanismo. Porém, o leitor nem sempre se dá conta de que foi atingido por algo avassalador. A luta acaba e o juiz determina ter havido nocaute técnico. Os golpes foram todos no limite permitido pela linha da cintura. Não houve aquele cruzado no queixo. Ele está atordoado e não sabe o motivo.

No campo do cinema, é assim que me sinto quando vejo Onde os fracos não têm vez, dos irmãos Coen. O filme mostra uma caçada sangrenta protagonizada por um bandido inescrupuloso (o caçador Anton Chigurh, interpretado por Javier Bardem) e um veterano de guerra que encontra uma mala cheia de dinheiro proveniente do tráfico de drogas (Llewelyn Moss, a caça, vivido por Josh Brolin). O caso é acompanhado pelo xerife Ed Tom Bell (Tommy Lee Jones), que está às vésperas da aposentadoria. Ele apenas segue o rastro de sangue, pois sabe que o homem por trás daquilo (Chigurh) é alguém muito ruim. No primeiro dia como aposentado, sente-se deslocado. Relata a sua esposa um sonho estranho: uma cavalgada na neve, acompanhado de seu pai, rodeado por uma densa escuridão. Sem que sua narrativa onírica tivesse um desfecho, acordou. Sobem os créditos. O longa termina com o sofrimento no semblante de uma personagem que sabe estar vivendo num mundo maligno. Situação irremediável. De minha parte, sinto-me nocauteado não pela violência e tensão presentes ao longo da trama, mas por algo mais profundo que é representado pela descrença no semblante do agora ex-xerife.

No que diz respeito à literatura, há o caso de “Êxtase” (anteriormente traduzido como “Felicidade”), da neozelandesa Katherine Mansfield. Nele, vemos Bertha Young, jovem que tenta manter tudo que a rodeia em ordem: a casa, o bebê recém-nascido, o casamento, o jardim. A certeza de que está tudo limpo e correto produz em Bertha um sentimento de satisfação. Entretanto, o que Mansfield mostra (ou esconde?), de maneira sutil, são as rachaduras encobertas por uma fachada aparentemente impecável. Por trás da louça polida à perfeição e do impecável jantar servido aos convidados, há medo, inveja, raiva e adultério. Tudo bem. O jardim, com seu centro adornado por uma florida pereira, está em ordem. É o que importa. Quando a leitura do conto termina, estamos em pé, mas atordoados. Não foi um nocaute como aquele chute dado pelo Anderson Silva no Vítor Belfort, algo próximo da sensação proporcionada por “Feliz ano novo” e “Os anões”. Mas sabemos que algo nos atingiu, que alguma coisa está fora do lugar. Há um gosto amargo na boca.

A saber, para quem não sabe: Katherine Mansfield inspirou escritoras do calibre de Virginia Woolf e Clarice Lispector. Para conferir essa influência, sugiro, humildemente, que sejam lidos, depois de “Êxtase”, o romance Mrs Dalloway (Woolf) e o conto “Amor” (Lispector).

Como nos tempos em que só queria que minha mãe contasse mais uma história

No conto “Os contistas”, Moacyr Scliar apresenta certa personagem que descreve uma foto na qual um homem palestra para outros que, sentados no chão, ouvem-no atentamente, todos eles possíveis integrantes de uma tribo africana.

Em entrevista concedida à bancada do programa Roda Viva, o moçambicano Mia Couto afirma que, no seu país, há um ditado: quando um velho morre, uma biblioteca arde. Talvez a situação descrita na narrativa de Scliar seja um exemplo concreto desse ser humano carregado de histórias.

Na correria do cotidiano, corre-se o risco de esbarrar em alguma história que nos torne irresponsáveis. A pretexto de avançar alguns capítulos, tarefas urgentes são adiadas. É difícil precisar o momento em que somos fisgados pelo fio de uma narrativa. Ainda mais hoje em dia, com a possibilidade de ler em suportes digitais. Podemos decifrar algumas páginas – ou, falando de um modo mais adequado ao atual zeitgeist, aumentar alguns números na porcentagem de leitura – e, se não gostamos do que lemos, colocamos o título de lado e partimos para outro.

Elena Ferrante me fisgou desde as primeiras linhas. Talvez essa entidade narrativa carregada de mistério (pseudônimo atribuído a Anita Raja, conforme reportagem recente publicada na revista The New Yorker), uma escritora mais sem rosto do que Thomas Pynchon, já estivesse exercendo grande influência na minha decisão de embarcar na Série Napolitana. Elena/Lenu Greco, a narradora de Ferrante, convida-nos a acompanhar sua trajetória por mais de mil e quinhentas páginas divididas em quatro livros. Um desafio óbvio numa época de séries que são maratonadas em menos de vinte e quatro horas.

Em meio a tantas datas criadas não sei quando, por quem ou por quê, pululou no Twitter, domingo último, a hashtag do dia do leitor. Tentei me lembrar do momento em que tive a certeza de que seria alguém que fizesse questão de estar sempre lendo algo. Lembrei que, antes de ser leitor, fui ouvinte.

Quando criança, invariavelmente exigia que minha avó ou minha mãe ou minhas tias contassem histórias de suas respectivas infâncias, período em que moravam na roça. Meu imaginário era mobiliado por casos que tinham como cenário fogão a lenha, plantações de café e noites precariamente iluminadas por lamparinas a querosene, elementos estranhos (e maravilhosos) ao espaço urbano no qual cresci.

Da mesma maneira que ficava vidrado naquelas narrativas orais, não consegui me desvencilhar do longo fio narrativo esticado por Elena Greco. Em A amiga genial, primeiro livro da série, a sexagenária narradora se coloca a rememorar sua infância violenta na periferia de Nápoles. O relato é sempre permeado pela presença de sua melhor amiga (ou, talvez, pior inimiga), Lila Cerullo. Imagens de outro tempo, a violência física de maridos e pais violentos, de pessoas misteriosamente assassinadas, de abusos sexuais abafados pela vergonha familiar, tudo visto de uma nova perspectiva, pelos olhos da adulta que cava fundo sua memória em busca de objetos há muito enterrados.

Em um desses momentos, Greco rememora o dia em que Lila é arremessada pela janela, cai na calçada e quebra o braço. O autor da agressão é seu pai. Tudo bem. É só mais um dia comum de gritarias e espancamentos no bairro. A repetição de cenas como essa faz com que elas sejam descritas com a frieza e a objetividade da linguagem jornalística, situações manipuladas por uma competente narradora, que, baseada em testemunhos de outras personagens, alterna, quando necessário, os pontos de vista de sua câmera, para que pontas soltas não fiquem para trás.

Cheguei, nessa semana, ao quarto livro. Ainda estou sentado, ouvindo Lenu, e só me levantarei quando terminar seu relato. Como aqueles homens na fotografia mencionada por Scliar. Como nos tempos em que só queria que minha mãe contasse mais uma história.