O anti-Netflix

*Texto publicado originalmente no Portal Morada. Link: http://www.portalmorada.com.br/…/murilo-r…/63/o-anti-netflix

Depois de ler, nesse mesmo Portal Morada, o texto “Paixão pela telona”, em que o amigo Luis Antonio relembra suas sofridas excursões de Boa Esperança do Sul aos cinemas de Araraquara, lembrei-me de quando comecei a ouvir amigos dizendo que baixavam filmes pela internet. Num blog já inativo, escrevi textos vociferando contra os downloads e defendendo os cines.

Pura balela, minha conversa.

Não só me tornei um entusiasta dos torrents, como também entrei para a patota de assinantes da Netflix.

Mas, ainda assim, não abandonei completamente o já arcaico ritual de ir a locais específicos para a exibição de filmes. Principalmente porque gosto de ter o primeiro contato com os lançamentos dos diretores que aprecio em salas de projeção.

Nessas ocasiões, o período que antecede a sessão é de muita ansiedade. Chego sempre com cerca de quarenta minutos de antecedência, receoso de que os ingressos se esgotem e, acima de tudo, de perder os trailers. No último sábado, essa aventura se repetiu, pois fui conferir o Dunkirk de Christopher Nolan.

Devo dizer que tenho o péssimo hábito de ler críticas sobre um filme antes de vê-lo. E, se gosto muito do trabalho do diretor, como é o caso, compro a avaliação positiva – a saber, Amnésia, O Cavaleiro das Trevas e A origem estão no topo da minha lista de favoritos.

Um dia antes do lançamento de Dunkirk, li resenha do crítico Cássio Starling Carlos, na Folha de S. Paulo, que avalia a película como uma máquina de expansão sensorial. Em contrapartida, na mesma Folha, Marcelo Coelho a definiu como um “tiro n’água”; segundo ele, Nolan focaliza aspectos pouco profundos do evento, principalmente no que diz respeito às personagens.

Nem preciso dizer que tive a atitude bairrista de apoiar, inconscientemente, a opinião de Starling Carlos.

Bom, mas vamos ao filme.

Como pano de fundo para a história, foi pinçado um momento específico da Segunda Guerra Mundial, no qual as tropas aliadas foram encurraladas pelos nazistas em Dunquerque, no norte da França, e precisaram ser evacuadas. Para isso, civis que possuíam barcos também se envolveram na missão de retirar soldados que eram bombardeados a todo o momento na região litorânea.

O longa se divide em três planos narrativos – terra, ar e mar -, focalizando diferentes personagens que representam ou o esforço daqueles que saem em busca de seus compatriotas ou a aventura dos que, a todo custo, tentam se colocar entre os que serão salvos.

O barulho dos caças alemães foi aumentado ao máximo, o que causa no espectador a sensação de imersão que só uma sala de cinema pode proporcionar. A trilha sonora sombria, o tempo que se arrasta e os três planos narrativos que se entrelaçam até que um tipo de quebra-cabeças seja montado fazem de Dunkirk uma história que ultrapassa o conceito de “filme de guerra”. Na verdade, talvez ele se enquadre melhor na categoria de suspense. Não há as habituais vísceras espalhadas para todo lado como nos casos de Falcão Negro em perigo ou O resgate do soldado Ryan. O foco é no relógio, único instrumento de que dispõe o piloto Ferrier (interpretado por Tom Hardy) para monitorar o combustível de seu avião, que está cada vez mais próximo de uma pane seca.

Numa planície habitada cada vez mais pelas plataformas de streaming, Christopher Nolan planta seu Dunkirk como o anti-Netflix. Um convite para que saiamos do sofá e tomemos o rumo do cine mais próximo.

Meleira lê Zambra

Texto publicado originalmente no Portal Morada em 25/MAI/2017.

Na praça em frente à igreja matriz, Meleira fecha o volume de Formas de voltar para casa.

Há alguns dias, encontrou na internet uma lista elaborada pelo crítico Sérgio Tavares: “15 livros obrigatórios dos últimos 15 anos da literatura hispano-americana”. Resolveu que, na medida do possível, ela faria parte do seu repertório de leituras.

Meleira acha absurdo o fato do Brasil ser o único país da América do Sul que tem o português como idioma oficial e ainda assim os brasileiros raramente se preocuparem em aprender espanhol. Também não conhece ninguém que saiba algo dos países vizinhos.

Para escolher um dos livros indicados por Tavares, baseou-se no futebol.

Sempre foi fã da seleção do Chile. Elías Figueroa, Ivan Zamorano, Marcelo Salas, Alexis Sánchez, Arturo Vidal, jogadores do passado e do presente com os quais se simpatiza. Foi assim que optou pelo romance do chileno Alejandro Zambra.

Trata-se da história de um escritor que trabalha num livro baseado em seu passado e no de seu país. Os planos se alternam entre o relato ficcional e o do autor, um livro dentro do outro, em abismo, como dizem os acadêmicos.

Na noite anterior, zapeando pelos canais da TV, Meleira esbarrou no programa “A arte do encontro” – apresentado por Tony Ramos, transmitido pelo Canal Brasil. O entrevistado era o diretor de fotografia (de quem Meleira nunca tinha ouvido falar) Walter Carvalho.

Quando perguntado sobre qual conselho daria a quem está começando no ramo, respondeu que diria para que lessem Machado de Assis, Graciliano Ramos, Raduan Nassar e Ariano Suassuna. Segundo Carvalho, os narradores desses escritores são fotógrafos habilidosos no enquadramento de cenas. Foi influenciado por essas palavras que Meleira leu o livro de Zambra.

Percebeu que o narrador, em primeira pessoa, aponta o foco de sua lente na direção de rancores invisíveis. Viu um filho que nutre ódio viscoso pelo posicionamento político do pai: “Pinochet foi um ditador e tudo mais, matou algumas pessoas, mas pelo menos naquele tempo havia ordem”.

O Chile, assim como o Brasil, carrega em sua história a cicatriz duma ditadura sangrenta. Apesar de todas as atrocidades mais do que comprovadas, apesar de grandes instituições da imprensa reconhecerem publicamente o erro de terem se posicionado a favor do regime, apesar da censura e dos censores, apesar de tudo isso ainda corre-se o risco de ouvir o Palito, barbeiro frequentado por Meleira há quarenta anos, dizer que no tempo dos milicos é que era bom.

Julio Cortázar, durante uma aula ministrada nos Estados Unidos em 1980, explicou aos alunos que, na América Latina, autores que buscam transmitir ideias úteis escrevem contos realistas. De maneira sutil, essas narrativas denunciam realidades e pensamentos retrógrados – essa aula, intitulada “O conto realista”, está transcrita no livro Aulas de literatura.

Meleira não sabe disso, pois não conhece Cortázar, mas, se lesse o texto, certamente concluiria que Alejandro Zambra é um desses escritores que levam seu ofício a sério e se esforçam para desautomatizar o olhar de leitores como o Palito, sujeito que não leria um livro nem que fosse torturado.

Depois de refletir sobre isso, Meleira sente, sem saber o motivo, um tipo de satisfação. Acende um cigarro, olha para o relógio, coloca o livro debaixo do braço e se levanta.

A história escondida embaixo de tapete

Texto publicado originalmente em 12 de maio de 2017 no Portal da Morada.

Fui a um evento bem legal ontem à noite, disse Meleira a Santo, que jogava bisca com Campeão numa das mesas do bar do Paulo.

Ontem teve jogo do São Paulo na TV, Copa do Brasil, empate duro com o Botafogo de Ribeirão, você não viu?

Não, preferi ir ao lançamento dum livro.

Santo se surpreendeu com a resposta. Meleira agora deu até pra deixar de acompanhar o time do coração a troco de correr atrás de livros.

Lançamento de livro?

Sim, dum autor aqui da cidade.

Não sabia que tinha escritor por essas bandas.

Pois é, nem eu, quem me recomendou foi meu neto. Topei ir porque nunca tinha visto um escritor assim, em carne e osso.

Acho que também nunca vi, declarou Santo, enquanto embaralhava as cartas para mais uma rodada – moedas sem valor,colocadas nas extremidades da mesa, indicavam a vitória parcial de Campeão por duas partidas a uma. Havia Dirceu, que escrevia pro jornal da cidade, mas ele mesmo não se definia como escritor, fazia aquilo apenas como hobby, um passatempo pra quando não estava levantando muros e fazendo alicerces.

Sim, mas aquele rapaz de ontem ganha a vida fazendo isso.

E que tipo de livros ele escreve?

Livros de contos, textos curtos, tipo essas crônicas que a gente lê no jornal, mas as histórias são inventadas, não aconteceram realmente, pelo menos foi isso o que deram a entender o escritor e a mediadora.

Mediadora?

Uma professora de literatura que entrevistava o rapaz.

Que nem no Programa do Jô?

Isso mesmo. Ficaram falando sobre escritores que influenciam o moço na hora em que ele escreve, métodos de escrita e o peso que esse tipo de narrativa carrega.

Embora estivessem cientes das cartas que jogavam na mesa, Santo e Campeão estavam impressionados com o modo de falar do amigo. Era a primeira vez que o viam discursar daquela maneira empertigada, cheia de floreios, a mão com o inseparável Marlboro de filtro vermelho entre os dedos fazendo movimentos circulares no ar.

Hum, e por que esse tal de conto (é esse o nome da historinha?) tem tanto peso se é tão curto?

Parece que o conto carrega duas histórias, uma aparente e outra escondida. O escritor disse que um argentino falecido recentemente escreveu isso num livro, até anotei o nome dele, Ricardo Piglia.

Você conta uma história, mas na verdade conta duas? Enquanto Santo mostrava certa incredulidade, Campeão colocava mais uma moeda a seu favor.

Pois é, também fiquei meio cabreiro com isso, mas ele mencionou o exemplo de um cara que acertou uma milhar, chegou em casa e se enforcou com um lençol. Como é que alguém pode acabar com a própria vida depois de ganhar uma bolada no jogo de bicho? Essa seria a segunda história, escondida embaixo do tapete.

Pois é, faz tempo que nem no grupo seco eu ganho.

Daí falaram também sobre uma coisa que a literatura faz, como é mesmo, desautomatizar, ah, desautomatização.

Dessa vez, Santo nada disse. Estava preocupado, pois Campeão se aproximava da vitória.

Usaram um exemplo que achei bem interessante: a gente vê as barbaridades que acontecem por aí, estupros, assassinatos, atentados, tiroteios, mas nem ligamos mais, são coisas que acontecem todos os dias, nosso olhar tá viciado. Daí o conto vem e, com poucas palavras, faz a gente ter um novo olhar sobre essas situações, como se uma lente de aumento fosse colocada na frente do nosso olho. Faz a gente ver além do que o Bonner tá falando no Jornal Nacional. O escritor até mencionou o caso daquele menino do Paulista de Jundiaí na Copinha.

Aquele pilantra que falsificou a identidade?

Sim, mas, olha só, eu também achava que ele fosse um sem vergonha, mas, depois de ontem, tô repensando isso.

Você acha que é certo falsificar a identidade, então?

Não acho certo, mas o menino é negro, com baixa escolaridade. Que outra oportunidade de vencer na vida ele teria se não fosse essa? Ainda bem que optou pela bola e não pela bandidagem.

Verdade. O Bibão reclamou outro dia que o caixa do banco desfez dele só por causa da cor da pele.

Tá vendo? Ele contou isso e a gente nem ligou. Acontece a toda hora, por isso mudamos de assunto, sem nem conversar direito. É por isso que tô viciando nessa coisa dos livros. Tô indo pelo menos duas vezes por semana no sebo da dona Marta. Você sabe,tô velho, nem esperava me empolgar mais na vida. Os livros andam me dando um motivo pra pular da cama de manhã.

Olha só que coisa boa. Se eu soubesse ler, também podia fazer isso, sentenciou Santo melancolicamente: com a derrota na última rodada, teria que pagar outra cachaça para Campeão, que enrolava, satisfeito, um cigarro de palha.

O escritor que brincava de escrever

Escrevi um livro.

Repare no peso e na responsabilidade dessa frase. Literatura é coisa séria (ou pelo menos deveria ser). No final do ano passado, tive um livro publicado – meio que por acaso, é verdade.

Sempre cometi meus contos secretos, reproduzindo aquela máxima dos manuscritos engavetados. Tudo bem, não tinha a intenção de publicá-los, mas me interessava (e me interesso) pelo funcionamento da ficção. Foi desse interesse que surgiu a ideia de me matricular num curso de produção literária na Casa da Cultura de Araraquara, interior paulista.

Então, às segundas-feiras, me juntava a outras pessoas interessadas em criar e lapidar narrativas. Foi o período em que mais escrevi ficção, graças aos exercícios propostos pelo professor e escritor Assis Furtado.

No final do mesmo ano (que é o de 2015), uma amiga chamou minha atenção, via Facebook, para um concurso literário promovido pela editora Lamparina Luminosa. Na categoria destinada a contos e crônicas, os participantes deveriam enviar três narrativas curtas para avaliação. Me inscrevi e, surpresa, ganhei.

Identidades secretas foi lançado em outubro de 2016. O livro é composto por dezoito narrativas que foram criadas em diferentes momentos. Se houver um ponto interessante a ser ressaltado, talvez seja o do embate entre o escritor que brincava de escrever e o que, na medida do possível, tentou levar a sério a responsabilidade de fazer literatura – o sucesso dessa empreitada, claro, só poderá ser avaliado pelo leitor.

O rebento está à venda no site da editora (até o momento em que escrevo, com frete gratuito): http://lamparinaluminosa.com/portfolio_item/identidades-secretas-murilo-reis/

Em vez de Sherlock Holmes, Vilela

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Meleira, bebedor de cerveja profissional, chegou no bar do Paulo perguntando aos camaradas de balcão se uma obra de arte, para fazer jus à sua classificação, poderia ser vista de diferentes maneiras a cada vez que fosse visitada. Os três ou quatro pingaiadas que ali estavam trocaram olhares duvidosos de quem não sabe do que se trata, já que nenhum deles é dado às artes, pois a única coisa que fazem em seus dias de aposentados é beber à sua saúde, jogar no bicho e acompanhar os campeonatos de futebol transmitidos pela TV, mas, para não fazer desfeita, Santo disse que os antigos diziam que nunca se entra no mesmo rio duas vezes, talvez fosse mais ou menos disso que o recém-chegado falava.

Depois de pedir uma cerveja e dar o primeiro gole, Meleira disse que leu essa ideia num texto duma tal Ana Maria Bahiana, escrito numa coisa que seu neto chamava de blog – o velho começou, há umas duas semanas, a aprender como se mexe nessa coisa chamada internet para complementar o hábito da leitura, adquirido há uns cinco anos. Nesse tempo, leu de tudo, poesia e narrativas, mas o tipo de histórias pelo qual mais pegou gosto foram os romances policiais. Eduardo, filho do dono do bar que cursava Letras, indicou alguns autores que foram devorados por Meleira – ele achava curioso utilizar esse verbo sempre empregado quando se via diante dum prato de feijoada. Os devorados foram Agatha Christie, Conan Doyle, Raymond Chandler, Patricia Highsmith. Já tinha uma pequena prateleira de volumes comprados no sebo da dona Marta. Mas o escritor que mais fez a cabeça de Meleira foi um brasileiro. Viciou nas histórias escritas por Rubem Fonseca. Seus livros preferidos desse mineiro de Juiz de Fora eram A grande arte (“os mestres do ofício de matar com facas”), Bufo & Spallanzani (“um sujeito que morre e vive de novo, onde já se viu!?”), Agosto (“melhor suicídio dramatizado”) e O caso Morel (“difícil saber quem matou aquela mocinha”). Meleira elegeu este último como seu preferido entre os quatro. Depois de ler o texto da Bahiana, resolveu visitá-lo pela quinta vez.

Lembrava-se de que nas outras oportunidades havia se atentado para a trama em si: um artista plástico de vanguarda, encarcerado pelo misterioso assassinato de Joana, que pede ajuda a Vilela, ex-policial e escritor, para escrever um livro. À medida que lê os originais do prisioneiro, Vilela se vê espelhado na figura do possível criminoso, além de perceber que a história remete a fatos do passado de Morel, o acusado. Daí em diante, utilizando essa narrativa como guia, passa a investigar o caso.

Acendendo um Marlboro vermelho, o cigarro posicionado a tiracolo nos finos lábios rachados, Meleira disse para seus ouvintes que aí estava a grande sacada: uma história dentro da outra, espelhadas – mal sabia ele que esse tipo de construção já tinha nome, mise en abyme, em abismo, inaugurado por Andre Gide, tipo de narrativa em que um plano remete a outro, enfim, metassignificações, como dizem por aí. Ao abrir novamente seu surrado volume de O caso Morel na noite anterior, atentou-se para outra coisa. Santo, sem dizer nada, desviou seu embaçado olhar do copo de cerveja que estava pela metade, movimento que Meleira entendeu ser de interesse pela outra coisa que havia chamado sua atenção na nova leitura.

O detetive. Sherlock Holmes e Hercule Poirot pareciam imbatíveis, personagens equilibrados, mentalmente concentrados, desprovidos de crises existenciais. Bem diferentes desse rapaz, o Vilela, que abandonou a carreira de policial para se dedicar à de escritor e acabou dando com os burros n’água. As dificuldades vieram do mesmo modo. Antes, na polícia, tinha que lidar com um tipo de sadismo reprimido. Como escritor, apareceram as crises criativas, virou um sujeito amargo feito fel. Sadismo? Sim, ele gostava de bater, torturar os prisioneiros que capturava. É por isso que, como eu disse antes, lembrou Meleira, terminando sua garrafa de cerveja e espremendo a bituca no cinzeiro, ele se vê espelhado na figura do Morel, que é um sádico entre quatro paredes, batia na Joana enquanto, você sabe, faziam sexo. Que complicado, arrematou Santo.

Para retomar o raciocínio inicial, Meleira disse que, nessa leitura mais recente, viu a figura de Vilela associada ao homem comum, esse que falha em suas escolhas, erra quase sempre, sofre com os erros e acaba tendo pesadelos, perde peso, cabelos e fica sozinho, muitas vezes até acaba com a própria vida. Santo perguntou se esse homem comum seria parecido com o Arlindo, companheiro de truco que havia se suicidado há oito meses por conta de dívidas que acumulara. Exatamente, arrematou Meleira.

Em vez de Sherlock Holmes, Vilela – ou, nesse caso, o Arlindo.

Detetives que não enxergam

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Texto publicado originalmente em 17 de janeiro de 2017 no Homo Literatus.

A solução dos casos sempre passa pela frente do detetive, mas ele nunca a enxerga. Essa frase (parafraseada) é dita pelo investigador Martin Hart, interpretado por Woody Harrelson na primeira temporada de True Detective.

Talvez seja o mesmo caso do conto A carta roubada, de Edgar Allan Poe. Ali, C. A. Dupin prova que a solução do caso de chantagem política estava a todo o momento bem na frente da polícia parisiense e que, por esse motivo, ela não conseguiu solucioná-lo. Ou a situação vivida pelo Édipo de Sófocles, que, sem saber, investiga um crime cometido por ele próprio.

Tzevedan Todorov subdivide as narrativas criminais em “Tipologia do romance policial”, texto que faz parte do livro As estruturas da narrativa, com tradução de Leyla Perrone-Moisés.

O primeiro a surgir foi o romance de enigma, originado nos três contos policiais do acima mencionado Edgar Allan Poe e popularizado pelas histórias de Sherlock Holmes escritas por Sir Arthur Conan Doyle. Os narradores são amigos do detetive que testemunharam os fatos (Watson). O investigador, que não trabalha para a polícia, é alguém que se utiliza dos crimes como exercício mental para fugir do tédio.

Já o romance negro apresenta um protagonista falível na mesma medida em que é corruptível. Inaugurado por Dashiell Hammett e aprimorado por Raymond Chandler, não mais apresenta uma testemunha que expõe os fatos em forma de diário. Muitas vezes é narrado pelo próprio protagonista (o Philip Marlowe de Chandler) ou a instância narrativa apresenta os fatos como se eles ocorressem no momento em que “fala” (caso do narrador de Hammett). O leitor não sabe se o detetive chegará vivo ao final de sua saga, muito por causa de sua evidente falibilidade. Ele bate, mas apanha numa proporção muito maior. Está sempre no limite entre a vida e a morte. Detetives do acaso, assim os denominou a escritora de romances policiais P. D. James.

A violência peculiar ao romance negro faz com que suas histórias sejam carregadas de tensão. O diretor canadense Denis Villeneuve transpôs essa atmosfera pesada no filme Os suspeitos (2013).

Duas garotas desaparecem e as primeiras evidências apontam para Alex Jones (Paul Dano), jovem que possui o Q. I. de uma criança de dez anos. Mas esses indícios não passam do estágio inicial, as peças não se encaixam e não é possível incriminá-lo. A lentidão na solução do caso faz com que Keller Dover (Hugh Jackman), pai de uma das meninas, resolva tomar suas próprias ações.

O detetive incumbido do serviço é Loki (Jake Gyllenhaal), já famoso pela solução de casos difíceis. Mas esse trabalho apresenta uma complexidade específica: o número de suspeitos – que antes se resumia apenas a Jones – só aumenta e nenhum deles apresenta evidências suficientes para ser classificado como culpado. O tempo se arrasta e a possibilidade de encontrar as garotas vivas diminui.

No romance Agosto, de Rubem Fonseca, o narrador aponta para o fato de que o investigador deve lutar contra uma evidência inicial que aponta para um suposto culpado. Todas as pontas devem estar atadas. Dover (o detetive amador) e Loki (o detetive profissional) cometem uma série de erros e acabam se enrolando nas linhas desse novelo, quase ao ponto de se enforcarem em suas próprias teorias. O culpado aparecerá, mas não pelo mérito de suas investigações. Puro acaso. Nenhum deles possui a mente analítica e precisamente matemática de C. A. Dupin.

Não é possível afirmar se Villeneuve é leitor de romances negros ou não. Mas o tempo arrastado e em suspenso da literatura de Raymond Chandler está ali. Só podemos supor (assim como Loki e Dover) que o diretor buscava fazer um grande filme policial e conseguiu.

Notas sobre televisão, filmes e literatura

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Texto publicado originalmente em 6 de setembro de 2016 no Homo Literatus.

1. Acho que já li uma boa dezena de textos sobre Stranger Things. Essa rapaziada do Netflix sabe mesmo como analisar mercado – não sei nem se essa seria uma definição que especialistas da área de marketing dariam. De minha parte, posso dizer que gostei muito. Assisti aos oito episódios num sábado chuvoso. Essa voracidade é algo que ainda me assusta. Alguns dizem que sou um ressentido inadaptado aos novos tempos. Tudo bem, pode ser. Sou de um tempo em que tínhamos que esperar sete dias para ver o próximo episódio de Street Fighter no SBT – correndo o risco de ficar a ver navios dependendo da extensão de um programa dedicado aos caminhoneiros nos domingos de manhã.

2. Se tem uma coisa que me agrada nas obras de arte são colagens, homenagens e referências a obras que se tornaram clássicos. É por isso que sou um grande fã dos filmes do Tarantino – já aproveito para pedir desculpas aos leitores que já leram meus textos anteriores por citar novamente essa lindeza de diretor. Kill Bill, Pulp Fiction, Os Oito Odiados. Todos eles apresentam um mosaico de recortes, coisas que habitam o imaginário de um ex-balconista de locadora que viu de tudo em matéria de cinema. Em Stranger Things, os irmãos Duffer homenageiam filmes e séries oitentistas como E.T., The Thing, Evil Dead. É só olhar para os pôsteres colados nas paredes das casas dos garotos mais nerds e legais do universo. Isso pra não falar da trilha sonora liderada por The Clash no nível da narrativa, músicas que fazem parte da vida dos personagens.

3. A literatura, claro, também dialoga e homenageia a si mesma. Mia Couto que o diga. Neste ano, o livro Terra sonâmbula está pela segunda vez na lista de obras sugerida pela Unicamp, um dos maiores vestibulares do país. É uma pena que seja algo relativamente imposto. Com a tensão inerente à concorrência do vestibular, fica difícil imaginar que algum estudante sentirá prazer em ler algo que pode definir seu desempenho na prova. Foi por causa dessa lista que cheguei ao livro. Durante minha graduação em Letras, muito ouvi falar do moçambicano Mia Couto, mas sempre passei batido.

4. Em tempo: assim como muitos, acho uma grande sacada inserir uma obra da literatura africana num vestibular de grande audiência. Afinal, Brasil e Portugal não são os únicos países a falarem português. Terra sonâmbula é um bom modo de saber mais sobre Moçambique. Num contexto duma guerra anticolonial e civil, o romance apresenta a história do velho Tuahir e do menino Muidinga, sujeitos andantes que tentam sobreviver aos horrores que assolam seu país. Próximo a um ônibus que foi incendiado, encontram uma mala contendo os cadernos de Kindzu, conterrâneo que, assim como eles, está a fugir do conflito das milícias. A leitura dos doze volumes manuscritos por esse desconhecido fará com que Tuahir e Muidinga se distanciem de sua realidade e vejam uma ponta de esperança no final da estrada.

5. A literatura exerce seu poder viciante sobre eles. Assim como o telespectador que não consegue desgrudar de Stranger Things, Tuahir sente-se incomodado quando não ouve as leituras feitas por Muidinga. O historiador francês Jacques Le Goff, no livro História e memória, aponta a evolução das sociedades puramente orais para as que desenvolveram formas de escrita. Em certo momento, Muidinga faz o movimento contrário: decora o que leu e verbaliza as coisas guardadas no seu palácio da memória para seu tio de consideração, assim como fazem os foragidos criados por Ray Bradburry em Fahrenheit 451.

6. Lançado em 1992, Terra sonâmbula é um romance em abismo que finca suas raízes na tradição oral de contar histórias e nas mitologias tribais africanas. Kindzu se mostra como um Ulisses que, desprovido de Homero, registra e narra por conta própria sua epopeia.