Detetives que não enxergam

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Texto publicado originalmente em 17 de janeiro de 2017 no Homo Literatus.

A solução dos casos sempre passa pela frente do detetive, mas ele nunca a enxerga. Essa frase (parafraseada) é dita pelo investigador Martin Hart, interpretado por Woody Harrelson na primeira temporada de True Detective.

Talvez seja o mesmo caso do conto A carta roubada, de Edgar Allan Poe. Ali, C. A. Dupin prova que a solução do caso de chantagem política estava a todo o momento bem na frente da polícia parisiense e que, por esse motivo, ela não conseguiu solucioná-lo. Ou a situação vivida pelo Édipo de Sófocles, que, sem saber, investiga um crime cometido por ele próprio.

Tzevedan Todorov subdivide as narrativas criminais em “Tipologia do romance policial”, texto que faz parte do livro As estruturas da narrativa, com tradução de Leyla Perrone-Moisés.

O primeiro a surgir foi o romance de enigma, originado nos três contos policiais do acima mencionado Edgar Allan Poe e popularizado pelas histórias de Sherlock Holmes escritas por Sir Arthur Conan Doyle. Os narradores são amigos do detetive que testemunharam os fatos (Watson). O investigador, que não trabalha para a polícia, é alguém que se utiliza dos crimes como exercício mental para fugir do tédio.

Já o romance negro apresenta um protagonista falível na mesma medida em que é corruptível. Inaugurado por Dashiell Hammett e aprimorado por Raymond Chandler, não mais apresenta uma testemunha que expõe os fatos em forma de diário. Muitas vezes é narrado pelo próprio protagonista (o Philip Marlowe de Chandler) ou a instância narrativa apresenta os fatos como se eles ocorressem no momento em que “fala” (caso do narrador de Hammett). O leitor não sabe se o detetive chegará vivo ao final de sua saga, muito por causa de sua evidente falibilidade. Ele bate, mas apanha numa proporção muito maior. Está sempre no limite entre a vida e a morte. Detetives do acaso, assim os denominou a escritora de romances policiais P. D. James.

A violência peculiar ao romance negro faz com que suas histórias sejam carregadas de tensão. O diretor canadense Denis Villeneuve transpôs essa atmosfera pesada no filme Os suspeitos (2013).

Duas garotas desaparecem e as primeiras evidências apontam para Alex Jones (Paul Dano), jovem que possui o Q. I. de uma criança de dez anos. Mas esses indícios não passam do estágio inicial, as peças não se encaixam e não é possível incriminá-lo. A lentidão na solução do caso faz com que Keller Dover (Hugh Jackman), pai de uma das meninas, resolva tomar suas próprias ações.

O detetive incumbido do serviço é Loki (Jake Gyllenhaal), já famoso pela solução de casos difíceis. Mas esse trabalho apresenta uma complexidade específica: o número de suspeitos – que antes se resumia apenas a Jones – só aumenta e nenhum deles apresenta evidências suficientes para ser classificado como culpado. O tempo se arrasta e a possibilidade de encontrar as garotas vivas diminui.

No romance Agosto, de Rubem Fonseca, o narrador aponta para o fato de que o investigador deve lutar contra uma evidência inicial que aponta para um suposto culpado. Todas as pontas devem estar atadas. Dover (o detetive amador) e Loki (o detetive profissional) cometem uma série de erros e acabam se enrolando nas linhas desse novelo, quase ao ponto de se enforcarem em suas próprias teorias. O culpado aparecerá, mas não pelo mérito de suas investigações. Puro acaso. Nenhum deles possui a mente analítica e precisamente matemática de C. A. Dupin.

Não é possível afirmar se Villeneuve é leitor de romances negros ou não. Mas o tempo arrastado e em suspenso da literatura de Raymond Chandler está ali. Só podemos supor (assim como Loki e Dover) que o diretor buscava fazer um grande filme policial e conseguiu.

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