A história escondida embaixo de tapete

Texto publicado originalmente em 12 de maio de 2017 no Portal da Morada.

Fui a um evento bem legal ontem à noite, disse Meleira a Santo, que jogava bisca com Campeão numa das mesas do bar do Paulo.

Ontem teve jogo do São Paulo na TV, Copa do Brasil, empate duro com o Botafogo de Ribeirão, você não viu?

Não, preferi ir ao lançamento dum livro.

Santo se surpreendeu com a resposta. Meleira agora deu até pra deixar de acompanhar o time do coração a troco de correr atrás de livros.

Lançamento de livro?

Sim, dum autor aqui da cidade.

Não sabia que tinha escritor por essas bandas.

Pois é, nem eu, quem me recomendou foi meu neto. Topei ir porque nunca tinha visto um escritor assim, em carne e osso.

Acho que também nunca vi, declarou Santo, enquanto embaralhava as cartas para mais uma rodada – moedas sem valor,colocadas nas extremidades da mesa, indicavam a vitória parcial de Campeão por duas partidas a uma. Havia Dirceu, que escrevia pro jornal da cidade, mas ele mesmo não se definia como escritor, fazia aquilo apenas como hobby, um passatempo pra quando não estava levantando muros e fazendo alicerces.

Sim, mas aquele rapaz de ontem ganha a vida fazendo isso.

E que tipo de livros ele escreve?

Livros de contos, textos curtos, tipo essas crônicas que a gente lê no jornal, mas as histórias são inventadas, não aconteceram realmente, pelo menos foi isso o que deram a entender o escritor e a mediadora.

Mediadora?

Uma professora de literatura que entrevistava o rapaz.

Que nem no Programa do Jô?

Isso mesmo. Ficaram falando sobre escritores que influenciam o moço na hora em que ele escreve, métodos de escrita e o peso que esse tipo de narrativa carrega.

Embora estivessem cientes das cartas que jogavam na mesa, Santo e Campeão estavam impressionados com o modo de falar do amigo. Era a primeira vez que o viam discursar daquela maneira empertigada, cheia de floreios, a mão com o inseparável Marlboro de filtro vermelho entre os dedos fazendo movimentos circulares no ar.

Hum, e por que esse tal de conto (é esse o nome da historinha?) tem tanto peso se é tão curto?

Parece que o conto carrega duas histórias, uma aparente e outra escondida. O escritor disse que um argentino falecido recentemente escreveu isso num livro, até anotei o nome dele, Ricardo Piglia.

Você conta uma história, mas na verdade conta duas? Enquanto Santo mostrava certa incredulidade, Campeão colocava mais uma moeda a seu favor.

Pois é, também fiquei meio cabreiro com isso, mas ele mencionou o exemplo de um cara que acertou uma milhar, chegou em casa e se enforcou com um lençol. Como é que alguém pode acabar com a própria vida depois de ganhar uma bolada no jogo de bicho? Essa seria a segunda história, escondida embaixo do tapete.

Pois é, faz tempo que nem no grupo seco eu ganho.

Daí falaram também sobre uma coisa que a literatura faz, como é mesmo, desautomatizar, ah, desautomatização.

Dessa vez, Santo nada disse. Estava preocupado, pois Campeão se aproximava da vitória.

Usaram um exemplo que achei bem interessante: a gente vê as barbaridades que acontecem por aí, estupros, assassinatos, atentados, tiroteios, mas nem ligamos mais, são coisas que acontecem todos os dias, nosso olhar tá viciado. Daí o conto vem e, com poucas palavras, faz a gente ter um novo olhar sobre essas situações, como se uma lente de aumento fosse colocada na frente do nosso olho. Faz a gente ver além do que o Bonner tá falando no Jornal Nacional. O escritor até mencionou o caso daquele menino do Paulista de Jundiaí na Copinha.

Aquele pilantra que falsificou a identidade?

Sim, mas, olha só, eu também achava que ele fosse um sem vergonha, mas, depois de ontem, tô repensando isso.

Você acha que é certo falsificar a identidade, então?

Não acho certo, mas o menino é negro, com baixa escolaridade. Que outra oportunidade de vencer na vida ele teria se não fosse essa? Ainda bem que optou pela bola e não pela bandidagem.

Verdade. O Bibão reclamou outro dia que o caixa do banco desfez dele só por causa da cor da pele.

Tá vendo? Ele contou isso e a gente nem ligou. Acontece a toda hora, por isso mudamos de assunto, sem nem conversar direito. É por isso que tô viciando nessa coisa dos livros. Tô indo pelo menos duas vezes por semana no sebo da dona Marta. Você sabe,tô velho, nem esperava me empolgar mais na vida. Os livros andam me dando um motivo pra pular da cama de manhã.

Olha só que coisa boa. Se eu soubesse ler, também podia fazer isso, sentenciou Santo melancolicamente: com a derrota na última rodada, teria que pagar outra cachaça para Campeão, que enrolava, satisfeito, um cigarro de palha.

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