Meleira lê Zambra

Texto publicado originalmente no Portal Morada em 25/MAI/2017.

Na praça em frente à igreja matriz, Meleira fecha o volume de Formas de voltar para casa.

Há alguns dias, encontrou na internet uma lista elaborada pelo crítico Sérgio Tavares: “15 livros obrigatórios dos últimos 15 anos da literatura hispano-americana”. Resolveu que, na medida do possível, ela faria parte do seu repertório de leituras.

Meleira acha absurdo o fato do Brasil ser o único país da América do Sul que tem o português como idioma oficial e ainda assim os brasileiros raramente se preocuparem em aprender espanhol. Também não conhece ninguém que saiba algo dos países vizinhos.

Para escolher um dos livros indicados por Tavares, baseou-se no futebol.

Sempre foi fã da seleção do Chile. Elías Figueroa, Ivan Zamorano, Marcelo Salas, Alexis Sánchez, Arturo Vidal, jogadores do passado e do presente com os quais se simpatiza. Foi assim que optou pelo romance do chileno Alejandro Zambra.

Trata-se da história de um escritor que trabalha num livro baseado em seu passado e no de seu país. Os planos se alternam entre o relato ficcional e o do autor, um livro dentro do outro, em abismo, como dizem os acadêmicos.

Na noite anterior, zapeando pelos canais da TV, Meleira esbarrou no programa “A arte do encontro” – apresentado por Tony Ramos, transmitido pelo Canal Brasil. O entrevistado era o diretor de fotografia (de quem Meleira nunca tinha ouvido falar) Walter Carvalho.

Quando perguntado sobre qual conselho daria a quem está começando no ramo, respondeu que diria para que lessem Machado de Assis, Graciliano Ramos, Raduan Nassar e Ariano Suassuna. Segundo Carvalho, os narradores desses escritores são fotógrafos habilidosos no enquadramento de cenas. Foi influenciado por essas palavras que Meleira leu o livro de Zambra.

Percebeu que o narrador, em primeira pessoa, aponta o foco de sua lente na direção de rancores invisíveis. Viu um filho que nutre ódio viscoso pelo posicionamento político do pai: “Pinochet foi um ditador e tudo mais, matou algumas pessoas, mas pelo menos naquele tempo havia ordem”.

O Chile, assim como o Brasil, carrega em sua história a cicatriz duma ditadura sangrenta. Apesar de todas as atrocidades mais do que comprovadas, apesar de grandes instituições da imprensa reconhecerem publicamente o erro de terem se posicionado a favor do regime, apesar da censura e dos censores, apesar de tudo isso ainda corre-se o risco de ouvir o Palito, barbeiro frequentado por Meleira há quarenta anos, dizer que no tempo dos milicos é que era bom.

Julio Cortázar, durante uma aula ministrada nos Estados Unidos em 1980, explicou aos alunos que, na América Latina, autores que buscam transmitir ideias úteis escrevem contos realistas. De maneira sutil, essas narrativas denunciam realidades e pensamentos retrógrados – essa aula, intitulada “O conto realista”, está transcrita no livro Aulas de literatura.

Meleira não sabe disso, pois não conhece Cortázar, mas, se lesse o texto, certamente concluiria que Alejandro Zambra é um desses escritores que levam seu ofício a sério e se esforçam para desautomatizar o olhar de leitores como o Palito, sujeito que não leria um livro nem que fosse torturado.

Depois de refletir sobre isso, Meleira sente, sem saber o motivo, um tipo de satisfação. Acende um cigarro, olha para o relógio, coloca o livro debaixo do braço e se levanta.

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