Vinganças e perdões

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Acho irônico o Canal Brasil ser parte da Rede Globo. Há muita qualidade na sua programação. Logo em seguida me lembro que é uma emissora paga por assinatura. Nem sempre bom entretenimento vem de graça. A matriz já mostrou filmes mais legais do que os que são transmitidos hoje. Intercine e Corujão eram boas pedidas nas madrugadas. Em entrevista no Provocações (acreditem, já faz mais de um ano que Antônio Abujamra nos deixou), Lourenço Mutarelli fez uma boa colocação a respeito: a televisão brasileira nivela o intelecto do brasileiro por baixo.

Quando olho para a grade do Canal Brasil, uma culpa que me acompanha há tempos aperta meu peito: minha falta de conhecimento sobre filmes brasileiros. Na verdade, os que estão fora do mainstream, rodados apenas em mostras e festivais, faturando o suficiente para pagar sua produção. Inclusive perco eventos na cidade onde moro. Há algumas semanas, uma amiga me recomendou um filme. No dia anterior, ela havia ido a uma sessão, seguida por um bate-papo com o diretor. Disse-me que eu deveria conhecê-lo, pois sua trajetória profissional é parecida com a minha, no sentido de trabalhar muitos anos com o que não se gosta. Além disso, o longa também valeria muito a pena. Trata-se de Para minha amada morta, dirigido por Aly Muritiba. Na última terça-feira, tive a sorte de encontrá-lo no salvador Canal Brasil.

Fernando (interpretado por Fernando Alves Pinto), fotógrafo da polícia, está arrasado pela morte da esposa. Mexendo em velhas fitas VHS, descobre que ela o traía e gostava de gravar as cenas de sexo. Valendo-se de sua posição no trabalho, ele descobre o paradeiro de Salvador (Lourinelson Vladmir), o amante. A grande sacada do filme talvez seja a habilidade de Muritiba em fazer com que o tempo se arraste e as cenas sejam sufocantes. Fernando entra na vida de Salvador, planejando executar sua vingança. Mas de que modo?

No conto “Duelo”, Guimarães Rosa apresenta o seleiro Turíbio Todo, homem rústico que flagra sua mulher em pleno desenrolar do adultério com Cassiano Gomes. A partir daí, um ciclo de perseguições movidas por vingança é iniciado. Mas a lei do sertão é diferente da urbana. A justiça é feita no manejo da garrucha. Fernando e Salvador não são homens cascudos como Turíbio e Cassiano: consideram muita coisa entes de puxar o gatilho.

Para minha amada morta mostra que vinganças e perdões às vezes são desnecessários. A solução nesses casos é apenas seguir em frente.

Para ficar em casa II

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LIVRO

Em Fazes-me falta, a portuguesa Inês Pedrosa constrói a história de dois amantes que são separados pela repentina morte da mulher. Alternadamente, cada capítulo é um monólogo. Eles refletem sobre as nuances e detalhes da relação, revelando as visões que têm um do outro, suas personalidades, concepções de mundo. Tudo sendo mostrado aos poucos, pausadamente. Imagética, a narrativa é feita de devaneios e fragmentos que remetem aos filmes de Terrence Malick.

FILME/DOCUMENTÁRIO

Em Janela da alma, dirigido por João Jardim e Walter Carvalho, artistas e personagens que têm algum tipo de dificuldade para enxergar – como o músico Hermeto Paschoal, a atriz Marieta Severo, o escritor José Saramago, o vereador Arnaldo Godoy, o fotógrafo Evgen Bavcar, o neurologista Oliver Sacks – são entrevistados, relatando suas experiências visuais, que vão da miopia à cegueira. O cineasta alemão Wim Wenders diz que já tentou utilizar lentes de contato. Não conseguiu manter o hábito – sentiu falta do enquadramento seletivo proporcionado pelos óculos. Sem eles, enxerga demais. Afirma que, nos dias de hoje (o filme é de 2001), somos bombardeados por uma enxurrada de imagens. Nunca esteve tão fácil ter acesso a fotos, filmes, pinturas ou histórias em quadrinhos. Porém, não enxergamos nada. O que nos falta não são meios, mas tempo. Séries de televisão têm suas temporadas de doze episódios devoradas em um dia. Não há o que esperar.

HISTÓRIA EM QUADRINHOS

Gavião Arqueiro: Minha Vida Como Uma Arma é uma compilação de cinco edições da revista Hawkeye e uma da Young Avengers Presents. Os artistas responsáveis: Matt Fraction (roteiro), David Aja e Javier Pulido (rabiscos). Longe de Capitão América, Homem de Ferro, Thor e companhia, Clint Barton é retratado defendendo seus vizinhos da gangue do agasalho, salvando cachorros da morte, participando de churrascos na laje, protagonizando perseguições em alta velocidade a bordo dum Dodge Challenger 1970. Assim como nos livros de Raymond Chandler, suas investigações saem da pior maneira possível. Tudo termina (ou começa) com tiroteios, garrafadas, socos, pontapés, quedas vertiginosas de edifícios e, claro, flechas para todo lado. Os motivos que levaram o herói do acaso até ali vão sendo narrados aos poucos, na pegada dos filmes do Guy Ritchie. Há também o detalhe dos músculos se retesando e da respiração sendo controlada antes do disparo certeiro. Momento pra tomar fôlego depois da correria sanguinária.

Para ficar em casa

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LIVRO

E não sobrou nenhum, de Agatha Christie, é tido como o romance policial mais vendido da história. Publicado pela primeira vez em 1939, teve mais de 100 milhões de cópias vendidas ao redor do mundo. Dez pessoas que não se conhecem são levadas, por motivos diversos, a uma mansão situada numa ilha particular. A única semelhança que possuem é o fato de ocultarem terríveis segredos ocorridos no passado. Logo, eles descobrem que há algo estranho: apesar de estarem munidos com uma dispensa cheia de alimentos, todos os meios de comunicação com o mundo exterior estão cortados. Das maneiras mais estapafúrdias, começam a ser eliminados um a um. Mas, se elas são as únicas pessoas na ilha, quem é o assassino? É justamente o leitor que se faz investigador nesse romance policial sem detetive.

FILME

Relatos selvagens (2014), dirigido e roteirizado por Damián Szifon, apresenta seis histórias que transitam entre o trágico e o cômico, situações extremas que terminam com explosões de violência, revelando o faceta mais primitiva do ser humano. Do homem ressentido pelas humilhações sofridas no passado aos dois motoristas que se desentendem numa estrada deserta, o filme funciona como um livro de contos de Dalton Trevisan ou Rubem Fonseca: cada episódio consegue ser ao mesmo tempo irônico e perverso, símbolos de um desespero velado.

ÁLBUM

Uncle Acid & The Deadbeats é uma banda estabelecida em Cambridge, na Inglaterra. Blood Lust (2011) apresenta nove músicas, quarenta e cinco minutos de blues pesado e pegajoso, mistura de Beatles pós-“Helter Skelter” com o mais sujo Black Sabbath. A faixa “Death’s Door” é um bom resumo do que se encontra no disco.

O leitor é driblado com um corte seco

1970 - Brasil 1 x Inglaterra 0 - Antes o gol brasileiro

Na barra de pesquisa do Google, digitei “caldo cultural”. O primeiro endereço que apareceu me mostrou o seguinte: “mistura de elementos de ordem psicológica, antropológica, sociológica, política ou cultural que constituem o ambiente propício para a geração de fatos, tendências, perspectivas ou opiniões de um indivíduo, grupo ou sociedade”.

Foi mais ou menos isso que pensei a respeito de O drible, romance de Sérgio Rodrigues, história de Murilo Filho e Murilo Neto, meus xarás, respectivamente pai e filho, que se reencontram após um hiato de vinte e seis anos para acertar as pontas soltas do passado. Aos poucos, o narrador vai justificando o ódio mortal que o herdeiro sente pela figura paterna que, além de tudo, não é seu genitor biológico. Os segredos dessa contenda familiar estão escondidos nos porões da ditadura militar – período que se mostra cada vez mais vivo em nosso imaginário. Mas o livro do mineiro de Muriaé vai além desse conflito entre parentes adotivos. Trata-se duma homenagem à crônica esportiva brasileira, gênero que se equilibra entre literatura e relato jornalístico.

Murilo Filho teve como primeiro apelido “Dickens de Campos Salles” (título criado por ninguém menos que Nelson Rodrigues) graças ao seu estilo refinado de escrita, para depois se consagrar como o “Leão da Crônica Esportiva”. Acompanhou a Copa do Mundo de 1970 in loco, transitou entre figuras reais do jornalismo esportivo como Armando Nogueira e Mário Filho, viu os maiores jogadores da história em campo.

O cronista com olhar apurado enxerga a poesia escondida em cada chute de trivela, chapéu, chaleira, drible da vaca, caneta. Há algum tempo, o Museu da Língua Portuguesa – antes do seu trágico incêndio – exibia uma mostra sobre o extenso vocabulário do futebol. Podia-se ouvir a narração do saudoso Osmar Santos, ver vídeos em que Ronaldinho Gaúcho explicava cada termo futebolístico com demonstrações práticas de seu significado. Com tamanho palavreado, é incrível que no Brasil haja tão poucas obras literárias sobre o melhor esporte do mundo.

Na revista piauí de junho, Alejandro Chacoff escreveu artigo sobre as malandragens do futebol. No meio de explanações a respeito das reações hipócritas do torcedor no que diz respeito a jogadores “cai-cai”, Chacoff fala sobre Galvão Bueno, “nosso narrador mais ufanista”, “um mestre em manipular narrativas”. Essa manipulação é tema de um dos trechos mais interessantes do livro. Murilo Filho disserta que, para manter os ouvintes entretidos, os locutores eram obrigados a relatar o que não viam e encher de floreios entusiastas o mais simples dos passes. Por isso, na era da televisão, os jogadores tiveram que se desdobrar para chegar ao nível das narrativas sonoras das quais eles foram protagonistas, tudo para provar aos espectadores que havia, sim, magia no futebol. Essa mágica aparece na figura de jogadores lendários como Peralvo, que, segundo o Dickens carioca, graças a forças sobrenaturais, foi melhor do que Pelé.

A prosa de Sérgio Rodrigues segue um padrão que lembra o do jornalista Fabio Massari nos textos de Mondo Massari e do recluso romancista Thomas Pynchon em Vício inerente. A narrativa fluida é recortada por referências à cultura pop e metáforas tiradas da cartola. O desfecho da trama faz jus ao título. O leitor é driblado com um corte seco. O nível de reviravoltas é o mesmo do filme argentino O segredo dos seus olhos. Quando se pensa “então é isso”, não, há mais um lance por vir, acréscimo de cinco minutos a uma partida que já parecia definida.

Esse caldo cultural do autor dá base a uma obra que já pode ser usada como referência literária em se tratando do esporte mais popular do país. Mesmo para quem não gosta de futebol, O drible é difícil de largar.

O sadismo dos deuses do futebol

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Ontem, assisti a três jogos. Alemanha e Eslováquia, Santos e São Paulo, Argentina e Chile. Sempre que passo por uma maratona como essa, me pergunto: como consigo gostar tanto de futebol? Tenho o mesmo vício em outras áreas, mas acho que nunca vou conseguir passar seis horas seguidas lendo um livro. O tempo dedicado à televisão foi até maior, se pensarmos que a final da Copa América Centenário acabou nos pênaltis.

A Alemanha não vinha fazendo boas atuações desde o título mundial no Brasil. Está longe de ser o time que estampou o eterno 7 a 1 na cara dos brasileiros. Nessa Euro, não estava convencendo. Contra a Eslováquia, finalmente sobrou. Quanto ao São Paulo, esperemos para ver se a decisão de poupar atletas para as semifinais da Libertadores é a mais acertada. Por enquanto, com mais uma vexatória derrota num clássico, tem-se apenas a certeza do quão limitado é o elenco tricolor.

Messi, novamente, falhou. Até semana passada, os comentaristas o chamavam de gênio por causa do gol de falta marcado contra os Estados Unidos. Foi um daqueles lances em que talvez só a física possa dar sentido à trajetória da bola. A posição, longe do alvo, na meia-esquerda, era muito mais confortável pra quem bate de direita. “La pulga”, com o corpo invertido, acertou no contrapé do pobre goleiro, na gaveta, canhota fazendo o papel das mãos tamanha a facilidade com que realizou tal proeza. Golaço. Alguns chatos tentaram colocar a culpa no goleiro. “Ele não deveria ter dado aquele passo pra direita”. Sou da opinião do sempre lúcido e ponderado Maurício Noriega, comentarista do Sportv: “Gente, vamos parar de querer achar falha na ação do goleiro. Temos que exaltar o feito do gênio”.

Messi não foi o único culpado pelo fracasso de ontem. Higuaín, mais uma vez, perdeu gol feito com a bola rolando, cara a cara com o arqueiro. Já havia desperdiçado chances semelhantes em finais de Copa do Mundo (2014, contra a Alemanha) e Copa América (2015, contra o mesmo Chile). Na última temporada, marcou quase quarenta gols pelo Napoli, tornando-se um dos maiores artilheiros da Europa. Alguém dirá que ele não é um bom centroavante? Eu é que não vou dizer isso, sempre vou querê-lo no meu time.

Não devemos deixar passar o fato de que, com esse título, o Chile se tornou a maior potência do futebol sul-americano. Dá gosto de vê-los jogar. Se não têm um fora de série entre seus selecionáveis, o time compensa com impressionante resistência física. Não há bola perdida pra Alexis Sanchez, Arturo Vidal e companhia. Estão sempre jogando no limite. Mereceram chegar a esse patamar.

Como disse Juca Kfouri, o futebol é cruel. Messi será massacrado pela imprensa de seu país como o maior responsável por mais uma derrota. Jogador que, segundo Maradona, não tem a frieza necessária para conduzir essa geração argentina a um título de expressão.

Independente dos títulos, Messi é um dos que inserem um pouco de poesia numa época em que o futebol tem ficado cada vez mais tático. Dá-se mais valor a times organizados do que a elencos que tenham jogadores de outro mundo. Os técnicos e suas pranchetas passaram a ser os protagonistas. Legado deixado por Cruijff e seu futebol total.

Não há justiça dentro das quatro linhas. É o único esporte no qual ser a melhor equipe não é garantia de vitória. A história de cada jogo é construída por linhas tortas, verticais, diagonais, riscadas de trivela e com desvios no meio do caminho. Talvez seja essa a resposta para a pergunta que me fiz no primeiro parágrafo dessa crônica. A Argentina era a única seleção com 100% de aproveitamento. O Chile conseguiu se classificar com pênalti inexistente contra a Bolívia e evoluiu na fase eliminatória – a grande guinada se deu na goleada por 7 a 0 sobre o México. Os chilenos saíram felizes.

Para que o mundo da bola continue sendo essa coisa inexplicavelmente viciante, espero que Messi não cumpra a promessa que fez ontem, de não jogar mais pela Argentina. Tenho fé de que ele driblará o sadismo dos deuses do futebol e ainda será campeão pelo país que tanto o questiona.

Poucas palavras

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Carol Bensimon – uma das minhas cronistas favoritas – defende descrições mais extensas em narrativas. É um posicionamento contra a concisão – o qual eu respeito. Ainda assim, prefiro estilos que lidem com poucas palavras e enfatizem as principais características de personagens e espaços.

Marçal Aquino é dos que melhor fazem isso. No romance Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios ele nos apresenta Lavínia, grande amor proibido do fotógrafo Cauby. Quando ela vai à casa do amante pela primeira vez, o que ficou mais vivo em minha memória não foi a descrição de sua beleza esbelta, mas a das manchas de suor das axilas em sua camiseta branca.

Quem lê Marçal Aquino logo percebe um escritor adepto à escola que prima pela precisão, aquela que tem como pilares Dashiell Hammett e Hemingway. Num debate realizado no Sesc de Araraquara, ele disse considerar Angústia, de Graciliano Ramos, o melhor romance da literatura brasileira. O alagoano é reconhecidamente um defensor desse trabalho intenso com a linguagem. Palavras desnecessárias devem ser cortadas.

Durante essa semana, resolvi tirar da estante um autor que conhecia apenas pela fama. Fiquei muito contente ao descobrir que José J. Veiga também foi um escrevinhador muito atento ao detalhe. A hora dos ruminantes possui uma série de outras qualidades, especialmente no que diz respeito às características alegóricas duma pacata cidade invadida por “estrangeiros”, cachorros e bois. Mas o que mais me chamou a atenção foi a descrição do povo de Manarairema.

Personagens rústicos, cada qual com uma habilidade. Geminiano é o homem da carroça; Amâncio, o dono da venda onde se toma cachaça e compra rapadura; Manuel Florêncio, o artesão da madeira; Apolinário, o artista dos ferros e metais. Apenas a simplicidade de mãos calejadas vem à tona. Essas peculiaridades se estendem à cidade. Tem-se uma ideia geral do lugarejo, de suas ruas de terra batida, dos cheiros de café e lenha queimada no fogão. Leitura boa, sem excessos, para ser feita com vagar.

Esse trecho resume a linguagem de Veiga: “A fala de cada um devia ser dada em metros quando ele nasce. Assim quem falasse à toa ia desperdiçando metragem, um belo dia abria a boca e só saía vento”.

O arte literária dum tal de Fernando Bonassi

Capa Luxuria V4 MF.inddHá não muito tempo, havia um evento literário regularmente promovido pelo Sesc de Araraquara/SP, no qual o escritor Marcelino Freire entrevistava autores convidados. Numa dessas edições, os entrevistados foram Marçal Aquino e um tal de Fernando Bonassi.

Entusiasta que sou quando se trata da Coleção Vaga-Lume e tendo acabado de ler, à época, Cabeça a prêmio, lá estava eu, numa quarta-feira chuvosa, em meio a uma plateia vergonhosa (composta de oito pessoas), em busca do autógrafo de Marçal. Nunca tinha ouvido falar do Bonassi.

Passados cerca de quatro anos, agora sei: o cara é paulistano da Mooca, nascido em 1962. Roteirista, dramaturgo e escritor, teve mais de vinte obras publicadas – destaque para Subúrbio, Passaporte e Declaração universal do moleque invocado. É coautor dos roteiros dos filmes Os matadores, Estação Carandiru e Cazuza – O tempo não para, e das peças Apocalipse 1,11 (em conjunto com a companhia Teatro da Vertigem) e Arena conta Danton (dirigido por Cibele Forjaz). Com Marçal Aquino, criou e escreveu os seriados Força-Tarefa e O caçador para a Rede Globo.

Depois de tomar ciência desse vasto e produtivo currículo, fiquei um tanto quanto envergonhado por não conhecer um cara tão fuçado na cultura pop. Foi por isso que, quando li sobre Luxúria, seu novo romance, o adquiri ainda em pré-venda.

No filme Réquiem para um sonho, os personagens, movidos pelo otimismo do verão, vislumbram um grande futuro pela frente. A chegada do inverno mostra o quanto estavam errados, o quão dura é a realidade. A situação da família retratada em Luxúria é parecida. Formada por homem, mulher, filho e cachorro, ela vive um período de ascensão da classe média, no qual todos têm condições de adquirir coisas antes inimagináveis. Não sabe lidar com essa felicidade, alegria comprada a prazo com financiamentos a perder de vista. A compra duma piscina a ser instalada no apertado quintal dá a falsa impressão de bonança, um tipo de bom presságio que nunca se confirma – “piscina, que ele tem e não tem” – e que servirá para ruir com os já abalados alicerces dessa estrutura familiar.

A falta de espaço se aplica a uma cidade grande, mas abarrotada de carros populares e corpos que se espremem e vão em busca de algo que nunca possuíram mas pensam terem perdido. O relógio anda, para e corre em desacordo com a vontade de cada um. Ninguém sai do lugar. Todos se apresentam estáticos, à mercê do tempo.

“O homem de que trata esse relato” – como diz o narrador, um tipo de repórter que vai elucidando cada lance da história – é um ferramenteiro, artista bruto, manuseador de máquinas pesadas que transforma o ferro rústico em aço polido, obra de arte que constitui a máquina do crescimento, do progresso financiado.

Meu primeiro emprego foi numa pequena metalúrgica. Mesmo se tratando de ficção, foi impossível não aproximar o cenário criado por Bonassi – “baseado em pessoas e acontecimentos reais, infelizmente”, como diz o próprio prefácio – dessa realidade que vivi. O torneiro mecânico, esse profissional que vive à margem da hierarquia social, munido de mãos, unhas e paquímetros, é, de fato, o artesão que coloca a engrenagem capitalista para rodar, sendo, no final das contas, o que menos se aproveita de seus benefícios – se é que eles realmente existem.

O que difere o romance literário como obra de arte é a capacidade do seu autor de enxergar o que não é comum, o que está cravado na essência do cotidiano. O que dá a Luxúria esse status é justamente essa virtude: no emaranhado de metal, concreto e corpos sofridos, seu narrador descreve as angústias vividas por uma cidade que, como se fosse um único organismo vivo, apodrece e agoniza.